Corpo e mente
Menos análise sociológica sobre Bad Bunny, más perreo

Assim como aconteceu com gatos quando me mudei para São Paulo, recentemente eu desenvolvi alergias a substâncias que, depois de fazer um teste dermatológico com amostras variadas nas costas, descobri que estão em sabonetes e shampoos que sempre usei, na minha maquiagem e na resina do meu óculos.
Com os cosméticos eu passei a olhar os ingredientes, troquei marcas e o sabonete líquido por um de barra. Mas com o óculos eu estou em negação. Diminuí o uso de óculos de sol, mas ainda estou pagando no cartão o de grau que é de um modelo que eu adoro. Eu tenho pouco astigmatismo, e uso óculos para mexer no computador, ver televisão, ler o celular ou livros, por isso não acho que faz sentido usar lente. Dá para viver sem, mas aí eu passo o dia forçando a vista e fico com dor de cabeça.
Um resultado dos últimos meses é que segui usando o óculos e agora estou com a pele ao redor do olho sempre meio irritada. O outro é que comecei a atentar para o meu uso e percebi que praticamente tudo que eu faço por lazer no dia a dia envolve focar minha visão e prestar atenção em alguma coisa que está acontecendo fora do meu corpo, em grande parte das vezes numa tela. Não foi uma grande surpresa, e me fez voltar a pensar em algo que há anos aparece como tema de terapia, que é minha dificuldade de sair da minha mente e ocupar mais o meu corpo.
Meu uso constante de óculos não se abalou nem durante os últimos meses em que a minha mente anda inquieta de um jeito que não é necessariamente ruim, mas se manifesta de formas ruins. Uma curiosidade e agitação que não se acomodam o suficiente para virar uma obsessão agradável mas acabam virando ansiedade e incapacidade de me concentrar no que eu preciso me concentrar. Estou com dificuldade de terminar um livro, hesitando sentar no sofá para ver um filme inteiro e sem foco para desenvolver um texto para esta newsletter, me entregando a um formigueiro mental que o feed e a timeline foram feitos para alimentar, aquele lugar em que sempre vai ter uma coisa nova mas nada vai de fato sossegar seu anseio.
Aí veio a segunda metade de fevereiro, um mês abençoado em que saí de São Paulo para o carnaval do Rio e passei quatro dias alternando entre blocos e praia na companhia de alguns dos meus melhores amigos, depois voltei para São Paulo para o show do Bad Bunny (minha única chance de virar o jogo e dizer: Isso não tem no RJ).
O show foi facilmente um dos melhores que eu já vi na minha vida. Em parte porque é uma produção espetacular, o som, a banda, o uso de luzes, projeções e fogos, a qualidade técnica de tudo é impecável. A forma como o show é organizado, do set list ao uso de dois palcos, os vídeos feitos para cada país, a energia. O Benito em si, um showman, um gostoso e um querido, que toma o tempo que precisa para cumprimentar os fãs na grade e distribuir pitorro de coco, que conseguiu tornar íntimo um show com 40 mil pessoas porque ele faz questão de interagir com quase todas as seções do estádio, da pista normal onde eu estava à arquibancada do fundo, geralmente relegada a ver só pelo telão e aqui num camarote para o rebolado do perreo dos reggaetons proibidões que ele canta em cima da casita. É um show grandioso que ao mesmo tempo te faz sentir numa festa.
Eu dancei e pulei tanto, provavelmente mais do que nos quatro dias de carnaval juntos, e depois eu continuei ouvindo Bad Bunny e percebi que sou incapaz de fazer isso sem dar uma reboladinha na rua, uma cantadinha no espanhol quebrado, e quando estou de fato em casa, dançar até suar.
Eu sinto que já passei da minha fase de ir em muitos shows, e eu nunca levei a música a sério como outros tipos de obras culturais em termos de tentar dissecar o que me faz gostar dela — muito provavelmente porque me incomoda o quanto ela é subjetiva, sensorial, difícil de transformar num texto crítico (admiro muito quem escreve bem sobre música). O Bad Bunny criou uma obra fantástica em Debí tirar más fotos, na residência que ele fez em Puerto Rico, no show que levou para a turnê mundial sem EUA, na apresentação do Superbowl que fez todo mundo querer discutir se brasileiro é latino e elaborar grandes análises sociológicas sobre colonização, pertencimento, cultura. Tudo muito válido e todas coisas que normalmente me atraem para uma obra, aquela oportunidade de análise e de leitura e de cavucar camadas para entender o que faz daquilo “importante” para o mundo e o que faz aquilo conectar comigo.
Mas por mais que eu tenha passado parte do ano passado ouvindo DtMF e pensando nessas coisas, com a proximidade do show o que mais conectou comigo foi a capacidade da música dele fazer meu corpo se mexer sem eu nem perceber, sem nem sempre entender a letra, ou entendendo que a letra é simplesmente sobre querer se soltar e usar o seu corpo e o corpo dos outros. O Bad Bunny faz belíssimas reflexões sobre o lugar onde ele nasceu, mas ele também canta que a sua bunda é tão gostosa que merece tudo, que sabe o que fazer para você gozar e que ninguém deveria te incomodar quando você quer perrear sola na balada. Seja no show, no refrão de Baile Inolvidable ou no casamento da apresentação do Superbowl, o que ele faz é uma festa justamente porque numa festa boa a gente desliga a mente e deixa o corpo tomar as rédeas, a gente sente mais do que pensa, a gente se deixa levar pela energia do momento.
A sensação que eu tive nesses dias com o combo Benito e carnaval foi de transferir minha inquietude mental para meu corpo, algo que eu infelizmente ainda tenho dificuldade de fazer mesmo quando engato períodos em que faço exercício por prazer. Eu sinto que nunca vou gostar de verdade de musculação, mas fazer esteira com a trilha sonora certa me ajuda a apaziguar um pouco a cabeça (sei que yoga também me faz este bem, mas estou enrolando voltar a fazer por falta de tempo e dinheiro). Para além do exercício, beber e comer é uma parte enorme disso — por isso tratar comida como algo meramente funcional e nutritivo é um dos meus maiores pavores — e a comunhão com outras pessoas — no carnaval, no show, na mesa de bar com amigos, no sexo, no afeto — também. Foi um mês bom para lembrar disso tudo, mas aí ele acaba e vem o tal do ano começando de verdade.
Fica então minha singela cobrança a mim mesma para tentar passar menos tempo com o óculos exercitando (ou só cansando) a mente, como já passo o dia fazendo no trabalho, ao sentar para escrever um texto como este, quando pego o celular por reflexo em cada tempinho que me sobra. É a velha dificuldade de ficar sozinha com a própria mente, sem ouvir, assistir ou ler os outros, sem um podcast para abafar as vozes da sua cabeça. Se fugimos até delas, que dirá ouvir o próprio corpo.
Mais perguntas e mais respostas
Eu tinha esperanças de ser uma bagunça divertida, mas achei o Morro dos Ventos Uivantes da Emerald Fennell um filme fraco (é obcecado com o corpo e até usa isso visualmente, mas não o suficiente para me prender só pelo sensorial; ao mesmo tempo parece um filme confuso e tímido em relação ao que quer dizer sobre a história). Porém estou apaixonada pelo álbum que a Charli XCX fez para a trilha sonora, é excelente.
Sob recomendação de uma amiga, estou no meio da série espanhola do mubi Os Anos Novos, que é uma graça e conta a história de um casal ao longo de uma década apenas com episódios passados entre 31 de dezembro e 1 de janeiro. Outra entrada para o rol de séries com ótimas cenas de sexo, essas hétero e com uma pegada mais realista.
Dois bons episódios recentes do podcast canadense Material Girls, que faz uma leitura acadêmica e materialista de obras da cultura pop (esse é o tipo de coisa que eu ouço no tempo livre, vocês entendem meu drama?): um sobre a recepção de Heated Rivalry em meio a um retorno do puritanismo e um sobre Morro dos Ventos Uivantes e teoria da felicidade (eu quase gostei mais do filme depois de ouvir).
Obrigada por ler até aqui! Eu adoraria saber o que vocês fazem para desligar o cérebro. Se quiser trocar ideia, deixe um comentário ou responda este email.
Quem estava no mailing da finada Femrecs sabe que ela era um exemplo de newsletter bissexta, do tipo que manda cartinhas quando dá na telha da autora, algo que dominou o ecossistema de escritas por email antes que as pessoas começassem a dizer “meu substack” (não faça isso!) e buscassem regularidade na esperança de descolar uma graninha com assinaturas.
Não tenho nada contra pagarem por escrita, inclusive vivo disso, mas não é o caso deste espaço, porque a intenção aqui é tirar coisas da minha cabeça e isso nem sempre obedece periodicidade fixa. Isso tudo para dizer que eu planejava fazer desta uma newsletter quinzenal, mas ela claramente não é. Ou talvez seja, se der na telha! Vamos descobrir juntos.




Eu sinto que a gente sofre do mesmo mal que é justamente "como conseguir deixar a cabeça livre e o cérebro fluir". Ultimamente eu até consigo ler coisa ou outra se é algo que me prende muito a atenção (Agatha Christie), mas num geral a ansiedade sempre vence e o vício em rede social acaba me levando a passar horas e horas olhando o feed do Instagram.
Você deixou uma resina atrás da orelha por aqui também. Me toquei que todo meu lazer também é todo intelectualizado. Filmes, livros e até música. Academia (a duras penas) nunca foi prazer de verdade. É de se pensar mesmo.