Sexo, intimidade e a linguagem do romance em Heated Rivalry
Finalmente, uma série em que todo mundo é lindo e todo mundo sente tesão
Há alguns anos um ensaio com o ótimo título “todo mundo é lindo e ninguém sente tesão” publicado na revista Blood Knife observava como a hegemonia dos blockbusters de super-herói criou um cinema mainstream em que os personagens são muito bonitos e teoricamente gostosos, mas ninguém sente tesão. Corpos existem para serem olhados porque no roteiro o Capitão América precisa ser forte, mas nunca sentem prazer erótico (no máximo há uma subtrama romântica sem charme), num tipo de esterilidade que também se reflete na estética e no tom dos filmes.
Eu não lembrava até reler este ensaio que ele começa descrevendo uma cena do filme Starship Troopers, dos anos 1990, em que vários soldados tomam banho no vestiário do exército enquanto agem de forma protocolar, sem sentir nenhum desejo pelos corpos perfeitos ao seu redor, numa cena que funciona como sátira para uma sociedade militarizada na qual os corpos são belos por questões funcionais, e a única fome que as pessoas sentem é a fome de fazer guerra.
Por coincidência, a série Heated Rivalry também tem em seu piloto uma cena num chuveiro de vestiário, mas o resultado é o oposto. Dois jogadores de hockey rivais com corpos definidos por questões funcionais quebram a sua versão de protocolo enquanto tomam banho depois de gravar uma propaganda para a liga do esporte. Nenhum dos dois está pensando em guerra (ou em hockey), mas sim transbordando de fome um pelo outro. Poucas falas, trocas de olhar, uma trilha sonora intrigante, um ângulo de câmera que revela e esconde o necessário. Nada é estéril neste um minuto de cena que é um cartão de visita perfeito para a pequena série canadense que virou o fenômeno surpresa da virada do ano.
Heated Rivalry tem vários elementos que justificam o sucesso que está obtendo no Canadá, nos EUA e de forma mais modesta no Brasil (pelo menos até a estreia na HBO Max em fevereiro). Seus seis episódios são bem dirigidos e escritos por Jacob Tierney, que adaptou a história de best-sellers da também canadense Rachel Reid, e muito bem atuados por dois jovens atores com uma quantidade absurda de química na série e fora dela, Connor Storrie e Hudson Williams (tem também o François Arnaud, de The Borgias).
Se a princípio ela chamou atenção pelas cenas de sexo fora da curva para a TV, o que a tornou um sucesso é o fato de ser um excelente exemplar de um romance (não uma romcom ou um romance erótico, embora seja uma série bem-humorada e erótica), e romance é um gênero de sucesso no qual o audiovisual tem tido alguma dificuldade de acertar ultimamente, principalmente quando sexo faz parte da história.
Para além da troca de olhares no chuveiro do vestiário, os primeiros episódios têm longas cenas de sexo que nos ajudam a conhecer melhor os personagens: o fato de um deles estar morrendo de tesão mas dobrar as roupas antes de entrar na cama, o fato do outro soltar provocações para desmontar a tensão como forma de sondar se o parceiro também está gostando. Em tempos de jovens supostamente reclamando de sexo que não avança a plot em filmes, em Heated Rivalry essas cenas não são apenas cruciais para o enredo, no início elas são o enredo, porque a série retrata como duas pessoas estão se conhecendo, e naquele momento elas só se conhecem daquela forma. A comunicação entre dois jovens de 19 anos é cheia de falhas na maior parte do tempo, mas funciona na cama.
Ao longo da temporada, isso se desenvolve em outros tipos de intimidade na medida em que eles passam quase uma década se recusando a se entregar de vez um ao outro (por todas as suas bagagens internas e por serem rivais no mundo homofóbico do esporte masculino profissional). A atração começa como desejo, sim, e depois paixão e amor, mas também vira admiração mútua, um respeito entre dois esportistas no mesmo nível de excelência. A evolução se dá por viradas de roteiro que qualquer fã de romance vai reconhecer, mas também por uma estrutura inusitada que demanda sua atenção ao começar apressada — passam-se anos nos primeiros episódios — e depois desacelerar e dar tempo aos personagens quando eles passam a abrir espaço de verdade um ao outro.
Fala-se muito de como os diálogos de séries de streaming parecem ter emburrecido, sobre como roteiristas são orientados a colocar os personagens narrando o que estão fazendo ou repetir fatos importantes porque eles sabem que os espectadores estão olhando o celular enquanto veem TV. Atire a primeira pedra quem nunca colocou um reality pra servir de som ambiente, e novelas sempre fizeram isso porque parte do público estava ocupado lavando a louça. Mas é uma tendência desanimadora que contribui para a pasteurização dessas obras.
Heated Rivalry foge dessa armadilha por ter muita confiança na história que está contando. Quando duas pessoas estão se apaixonando elas raramente falam o que pensam um para o outro, e em boa parte do tempo elas nem saberiam dizer para si mesmas o que estão sentindo. Isso tudo se comunica com olhares, linguagem corporal, tom de voz, proximidade, química, movimentos de câmera, ritmo de roteiro, trilha sonora. Várias coisas que você perde se ficar olhando o celular.
Além disso, você sempre começa um romance sabendo que os dois personagens vão ficar juntos, e a graça está em descobrir como se chega lá. Mais importante, está em viver cada momento até o fim com a mesma intensidade dos personagens, o que no audiovisual, onde você não tem acesso ao monólogo interno dos narradores, depende mais de forma do que de conteúdo.
Ao que tudo indica Tierney escolheu produzir a série no Canadá com um orçamento provavelmente menor que o gasto de figurino de um episódio de Bridgerton para evitar exigências absurdas de plataformas americanas, o que obviamente também tem a ver com a insegurança do mainstream em contar uma história gay explícita que não termina em tragédia. É meio simples, mas eu acho que boa parte do sucesso da série vem dessas qualidades se destacarem num meio que anda tão estéril quanto os blockbusters de super-herói, e também por serem parte de uma história dramática que é essencialmente feliz, onde o sexo não é violência nem lição de moral, onde a intimidade e o desejo dos personagens são levados a sério sem deixar de serem sensuais.
Outro dia eu dei play em De férias com você (People we meet on vacations), uma outra adaptação de um livro de romance, e terminei irritada porque o filme da Netflix me pareceu ter todos os elementos na mão para contar uma boa história — dois atores carismáticos e com química, um texto original de Emily Henry que eu nunca li mas é muito querido, uma direção decente — mas escolheu usar uma estrutura estranha com idas e vindas no tempo que para mim destruiu a tensão entre os dois personagens. Também é um filme sobre duas pessoas que se aproximam ao longo de anos (nesse caso, como amigos), mas senti falta de ele transmitir melhor o desejo que vai se acumulando entre os dois ao ponto de explodir no final.
Heated Rivalry tem o mérito de manter essa tensão numa história em que os dois personagens começam a se pegar de forma explosiva já no primeiro episódio. Isso acontece em parte porque a série sabe algo que a gente sabe na vida real mas a ficção às vezes esquece: que o sexo não é a culminação de um processo, o clímax óbvio de uma história entre duas pessoas e um fade out para o casal acordando na cama. O sexo pode tomar muitas formas, mas também é uma maneira de construir uma linguagem própria entre duas pessoas e de se descobrir dentro do seu próprio corpo.
A gente anda meio dividido entre a mania de reclamar que as gerações mais jovens não querem ver sexo na TV e no cinema e ter um monte de produtos genéricos que focalizam o puramente erótico (coisas quase softcore como 365 dias, Sex/life, esses novos dramas verticais). Volta e meia surge um Challengers ou uma Normal People, e fica esse ar de surpresa quando um filme ou série mais mainstream comprova algo que a gente já sabe há tanto tempo que os atores de Heated Rivalry literalmente tatuaram na pele: sim, sexo vende. Mas vende mais se estiver junto de uma história que merece ser contada e for capaz de nos fazer ansiar por cada minuto dela, até mesmo quando já sabemos o final.
Mais perguntas e mais respostas:
Uma análise detalhada da Jenny Hamilton sobre por que as cenas de sexo nos dois primeiros episódios de Heated Rivalry funcionam,
Um texto do Pelvini na newsletter Ninguém pediu review sobre a trilha sonora da série,
Um episódio do podcast da Vox sobre a evolução da forma como a TV americana retrata o sexo,
Uma photoshoot da GQ com o Connor Storrie e o Hudson Williams e um vídeo dos bastidores porque ninguém é de ferro.





Obrigado por colocar essa série no meu radar. Assisti ao primeiro episódio apenas, por enquanto. Gosto de Challengers e fiquei pensando nessa relação do filme e da série com esportes e essa abordagem mais direta com o sexo. Acho que tem alguma coisa ali.